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Escrito por Ivan Melo

Na sociedade em que vivemos hoje, a escrita ocupa um lugar central na transmissão de ideias. Livros, artigos, manuais e documentos são formas importantes de preservar e transmitir conhecimento. Mas ninguém aprende verdadeiramente apenas por possuir um livro. Para aprender, é preciso abrir o livro, lê-lo, estudá-lo, destrinchar seus parágrafos, fazer perguntas, tomar notas, comparar ideias de diferentes autores, duvidar, confirmar e aplicar aquilo que foi lido.

Cada pessoa terá um método. Algumas estudarão de maneira sistemática; outras, de forma mais intuitiva. Mas, em qualquer caso, o processo é evidente: quem deseja aprender precisa entrar no texto.

Atribui-se ao mestre confucionista Lu Jiuyuan, ao estudar grandes clássicos, a exclamação: “Permito que esses clássicos anotem a mim.” É uma bela imagem: não apenas nós lemos o texto, mas o texto também nos lê, nos reorganiza e nos transforma. O conhecimento escrito, quando realmente estudado, deixa de ser apenas informação e começa a se tornar corpo.

Esse conhecimento, quando é técnico, deve ser levado para a prática até que se torne habilidade. Músicos sabem bem disso: os pontos pretos no papel não são a música em si, mas um mapa para sua performance e interpretação.

Antes de depender da escrita, da leitura ou de uma cultura amplamente letrada, muitos conhecimentos precisavam ser preservados no corpo. O kata exerce essa função. O kata é um recipiente, um livro físico, garantindo que arquiteturas táticas e técnicas sejam transmitidas através das gerações.

Nesse sentido, o kata pode ser entendido como uma forma pré-moderna de transmissão de conhecimento: um modo de guardar e comunicar princípios de combate sem depender exclusivamente do texto. Mesmo quando certificados eram entregues de mestre para aluno, eles frequentemente continham pouquíssima instrução técnica real. Cabia à transmissão verbal, o kuden, passar os detalhes escondidos no kata. Afinal, nenhum sistema de escrita é completo o suficiente para descrever a complexidade multidimensional de um corpo humano em movimento.

O treino no Japão reflete essa ideia de memória. A palavra keiko, frequentemente usada para nomear o período de aula ou treino, significa algo como “revisitar o passado” ou “refletir sobre o antigo”. E é isso que vemos como uma das práticas mais difundidas nos dojos pelo mundo afora. Em grande parte, o treino se tornou uma revisão do passado, para que, em algum momento futuro, possamos puxar essas informações da memória na esperança de lutar contra um agressor, ou de tirar dez na próxima graduação ou competição – o que talvez também reflita o modelo de ensino atual e a lógica da nossa sociedade acadêmica.

Não é por acaso que uma das maiores observações – e reclamações – de professores ao ensinar em seminários de Aikido é justamente que muitos alunos não estão realmente vendo o que está sendo mostrado ali. Estão simplesmente agindo por memória muscular.

No entanto, manter um kata apenas como memória é como ter um livro sem nunca o ter aberto. E se alguém pergunta: “Qual é o conteúdo desse livro?”, “Para que ele serve?”, “Que tipo de conhecimento ele transmite?”, ficamos sem resposta.

Sistemas de transmissão corpórea não devem ser congelados como peças de museu, preservados com reverência, mas sem investigação. Se fazemos isso, corremos o risco de transformar a prática em curadoria vazia: guardamos um livro antigo, sentimos orgulho por preservá-lo, mas não sabemos dizer o que ele contém.

Preservar uma forma sem compreender sua função é também uma forma sutil de arrogância. É como se a antiguidade do objeto fosse suficiente para justificar sua importância, e como se o curador se tornasse um grande intelectual apenas por guardar as chaves do cofre.

Mas descartar por ignorância também é problemático. Inúmeras gerações testaram e refinaram cada recipiente de transmissão que chegou até nós. Não somos nós, seres humanos do século XXI, distraídos por telas e pisando no tatame uma hora por semana, que podemos decidir levianamente o que deve ser preservado e o que deve ser abandonado.

Dito isso, é preciso duvidar do kata – não por desrespeito, mas por seriedade. É preciso perguntar por que uma posição existe, por que um ângulo foi escolhido, por que uma mão está ali, por que o corpo se desloca daquela maneira, que tipo de pressão está sendo estudada, que tipo de resposta está sendo organizada. E tudo isso não pode permanecer apenas no plano intelectual dos “guerreiros do teclado” da internet: precisa ser colocado em prática.

Duvidar, aqui, não significa rejeitar. Significa investigar. Significa testar, confirmar e colocar em relação com o corpo vivo de outro praticante. Significa perguntar o que acontece quando há resistência, distância, intenção, medo, erro, velocidade, pressão e imprevisibilidade.

Nas artes marciais, a tradição não vive apenas porque é antiga. Ela vive quando é praticada, estudada, questionada e incorporada.

Aprender o corpo técnico de um sistema de combate é justamente abrir esses livros corporais. É estudar suas informações, criticá-las, aplicá-las e permitir que elas se tornem novamente experiência. O kata não deve ser uma relíquia intocável. Ele pode ser considerado bonito, antigo e respeitado, mas um livro que nunca é aberto permanece fechado: cheio de possibilidades, mas não necessariamente vivo.

O kata deve ser atravessado. Deve ser transcendido. Ele não é o destino final, mas uma porta.

E uma porta só cumpre sua função quando é atravessada.