BUDO NA ERA TO TURISMO: O turista e o peregrino no treinamento de Aikido
Por Ivan Melo
Recentemente, eu estava assistindo a um diálogo entre filósofos no youtube. A premissa da conversa era uma investigação sobre a perda do sagrado na vida cotidiana no século 21. O mediador da conversa era John Vervaeke, que tem uma variedade de projetos e atividades dedicadas a ajudar pessoas a reestabelecer significado nas suas vidas através de práticas e atividades filosóficas. No final do vídeo, eles entram em uma discussão sobre as características de turismo, uma atividade só possível na era moderna, e a peregrinação.
De acordo com Vervaeke, peregrinar envolve sair do seu local de origem numa jornada com a a busca e/ou esperança de transformação. Peregrinação é uma atividade profundamente humana, presente em todas as culturas e se extende pelo nosso passado distante. Há quem diga que a palavra grega theoria (contemplar), vem da atividade de peregrinação, que oferece amplo tempo entre os sítios sagrados para introspecção.
A peregrinação sempre teve razões religiosas, uma busca para religar o espírito humano a algo maior que a si próprio. Há também a peregrinação por motivos de cura, visitando locais sagrados com relíquias de santos, adoração de espíritos etc. No mundo pré-moderno, peregrinar era um ato de extrema dificuldade, envolvendo meses e até anos de jornada percorrendo sítios sagrados.
Na mesma conversa no youtube, o filósofo Mastropietro fala sobre o turista como alguém “impermeável” ao ambiente a sua volta. O turista viaja em ônibus fechados, em roteiros pré-estabelecidos para ter certeza do que vai ver e experienciar – frequentemente o tempo para contemplação e reflexão é inexistente, e o turista pula entre um local e outro.
Eu lembro de estar passando uma tarde no famoso templo Daitokuji em Kyoto, berço de inúmeros mestres Budistas, absorvendo a atmosfera em silêncio, até grupos de turistas entrarem em enorme estardalhaço, tirando fotos dos jardins com inúmeros equipamentos eletrônicos e sem parar um segundo para realmente olhar os famosos jardins Zen do templo, e desaparecendo depois de 5 minutos “consumindo” a paisagem. Em resumo, o turista é alguém que busca prazer e conveniência e que leva o seu mundo ao destino turístico, e o peregrino, por sua vez, abandona seu mundo na esperança de ser transformado pela sua jornada.
Grande parte dos Aikidokas, completamente inseridos na modernidade e suas conveniências, também abordam seu relacionamento com o Aikido como turistas. Por exemplo, o modelo do seminário de Aikido, ainda que inadequado para funcionar plenamente como modelo didático, ainda assim tentava em seu princípio agir como veículo de transmissão de formas básicas da arte, numa época que havia poucos instrutores qualificados. Logo, virou uma boa forma de angariar fundos para os organizadores e suas federações e assim segue.
Hoje o seminário é conveniente, trazendo o professor até você. O oposto do movimento feito na busca pelos mestres. Inclusive, no Japão, além das peregrinações com caráter explicitamente religioso (como Kumano Kodo, Shikoku, etc), era comum na comunidade guerreira o musha shugyo, onde guerreiros atravessam o país buscando duelos com grandes guerreiros do seu tempo para aprender, desafiar, confirmar e transformar suas habilidades marciais, uma atividade potencialmente e frequentemente fatal.
Atualmente me dei conta, que muitas pessoas nem fazem o seminário inteiro ou treinam com pessoas fora do seu grupo de costume, tirando somente algumas horas do seu dia num fim de semana para satisfazer sua curiosidade, ou “consumir” a celebridade do tatame da vez. Na enorme maioria dos casos, encontros dessa natureza possuem pouco potencial transformador, afinal com 400 pessoas presentes nos tatames das maiores cidades do mundo, o ensino e a prática tornam-se impraticáveis. Me lembro de quando o Doshu veio ao Brasil a mais de 20 anos atrás e iria dar aula num palco, com telões para a plateia de 1000 praticantes conseguirem enxergá-lo em troca de um valor exorbitante – eu me recusei a ir.
Assim como os turistas no templo em Kyoto, o turista do Aikido vai ao seminário para tirar uma foto, objetificando o professor-celebridade e transformando-o em um souvenir. Mas toda reificação possui dois lados: não existe apenas quem consome a celebridade; existe também quem aceita ser consumido. Alguns instrutores perceberam que, na economia da atenção das redes sociais, tornar-se espetáculo rende muito mais reconhecimento do que tornar-se mestre. Nesse contexto, performances cuidadosamente produzidas, acrobacias e demonstrações visualmente impressionantes deixam de ser apenas recursos pedagógicos e passam a constituir um produto.
O professor deixa de ser um guia para tornar-se um objeto de consumo, enquanto o aluno deixa de ser discípulo para tornar-se espectador. O valor do mestre passa então a ser medido por visualizações, seguidores, fotografias e pela capacidade de entreter. O praticante, por sua vez, deixa de buscar a transformação que o mestre encarna; busca apenas experimentar sua proximidade, como quem visita um monumento famoso. A lógica do turismo permanece intacta: colecionam-se experiências sem que nenhuma delas altere profundamente aquele que as vive.
É curioso que uma prática que afirma buscar o esvaziamento do ego termine, muitas vezes, reproduzindo exatamente a lógica oposta. O mestre transforma-se em marca; o aluno transforma essa marca em parte de sua própria identidade. Fotografias, certificados e seminários passam a funcionar como capital simbólico.
Em vez de desaparecer, o ego apenas troca de roupa.
Shirakawa talvez seja o exemplo mais evidente desse fenômeno. Sua presença nas redes sociais parece assumir conscientemente essa posição de celebridade do tatame, alimentando uma cultura em que a imagem do praticante vale mais do que sua transformação. Não se trata, porém, de uma crítica pessoal a ele. Se amanhã deixasse de existir, outro ocuparia imediatamente o mesmo lugar. A cultura da celebridade não nasce do indivíduo; ela o produz. O problema não é o homem, mas a estrutura que transforma professores em produtos e praticantes em consumidores.
O modelo de seminário é relativamente fácil de ser mantido: é conveniente, com mínimo potencial transformador, sem objetivos didáticos claros e divertido. O que é, diga-se de passagem, o oposto de toda e qualquer prática espiritual. Digo isso porque o próprio Doshu, ou líder do caminho, ao ser perguntado sobre o que era o Aikido, respondeu que a arte é uma prática espiritual. Se aceitamos a afirmação do Doshu, somos obrigados a perguntar: qual transformação espiritual o Aikido pretende produzir?
Toda prática espiritual tem objetivos: se aproximar de Deus, de Allah, iluminação, satori, ser mais como Cristo, ou Buddha… O Aikido não tem objetivo definido, então pode ser qualquer coisa: estilo de vida, ginástica, cosplay, bem-estar… Tecnicamente então nem se fala: recentemente vi alguém que passou anos treinando no Japão dizendo que o Aikido é igual ao jiu jitsu, mas diferente, só que igual, com uma ênfase diferente.
Existe também o turista que inclui em sua viagem, turismo ao dojos locais. Recentemente no dojo do meu sensei, recebemos um desses visitantes. Falhando em cortesias dentro e fora do tatame, abertura ao que estava sendo ensinado, ele se mostrou “impermeável” a cultura local.
Diga-se de passagem, não sou contra fazer turismo, conforto ou sentir prazer, mas acho um problema abordar turismo como fuga do cotidiano, fuga de si e busca indiscriminada por hedonismo.
Acredito, sim, que a jornada e o local contribuam para agir no íntimo do peregrino. Por exemplo, nunca me esquecerei da semana andando sozinhos pelas montanhas de Wakayama que eu e a Cathy estivemos percorrendo a Kumano Kodō. Nem da atmosfera belíssima na praça central em Santiago de Compostela ao visitar o santuário de São Tiago. Ou praticando zazen no zendō do templo Kōshōji, fundado por Dōgen Zenji. Isso sem dizer quando estamos em retiro, fazendo um intensivo de Aikido que dura uma semana na Espanha ou na zona rural inglesa.
Mas vejo o ambiente exterior somente como inspiração para essa busca, que é primordialmente interior. A peregrinação acontece no seu dojo, pode acontecer ao ler um livro, numa profunda conversa com outro buscador ou em contemplação. O peregrino, em resposta ao seu mais íntimo, olha para fora de forma permeável e permite que a transformação aconteça em si.
Talvez seja justamente por isso que tantos sintam falta do sagrado. Não porque ele tenha desaparecido do mundo, mas porque aprendemos a atravessá-lo como turistas.
O sagrado não se revela ao olhar que apenas consome; revela-se ao olhar que aceita ser transformado.