Imagem: Yoshitsune vs Benkei
Escrito por Ivan Melo
Existe uma diferença entre praticar uma arte marcial e ser um artista marcial.
Alguém pode treinar técnicas, repetir formas, decorar sequências e ainda assim não abraçar os problemas mais profundos que a prática coloca diante de nós. Porque uma arte marcial não lida apenas com movimento, estética ou tradição. Ela nasce de uma realidade muito concreta: o confronto violento entre corpos.
Isso não é hipotético. Somos seres violentos, com os outros e conosco mesmos.
Hoje usamos a expressão “arte marcial” quase automaticamente. Ela carrega uma mistura de ideias. “Marcial” remete a Marte, o deus romano da guerra; já budō, termo japonês muitas vezes traduzido como arte marcial, aponta para algo como um “caminho marcial”. Não são exatamente a mesma coisa, mas a tradução se consolidou. Ficamos, então, nesse território intermediário: o que há de “arte” e o que há de “marcial” naquilo que praticamos?
Para mim, o artista marcial não é definido apenas pelo seu nível técnico. Ele é definido pela seriedade com que encara os dilemas da prática. Ser artista marcial é levar a sério as questões que surgem quando uma técnica envolve desequilíbrio, controle, queda, impacto, ameaça, dor, responsabilidade e medo.
Um artista marcial não pode se satisfazer apenas com a execução de coreografias ou formas bonitas. Kata, técnicas pré-combinadas e exercícios estruturados são ferramentas importantes, mas eles precisam apontar para algo real. Precisam nos fazer perguntar: isso funciona? Como funciona? Contra quem? Em que contexto? O que acontece se eu executar mal? O que acontece se eu usar força demais, força de menos, intenção demais ou atenção de menos?
A técnica mal executada não é apenas um erro estético. Ela tem consequências. Pode machucar o parceiro, pode criar ilusões sobre a própria capacidade, pode alimentar vaidade, rigidez, medo ou agressividade. Por isso, a prática precisa ser mais do que repetição. Ela precisa ser investigação.
Ser artista marcial é estudar o próprio corpo e o corpo do outro, a distância, o tempo, o equilíbrio, a intenção e o confronto. É compreender que o parceiro de treino não é um obstáculo nem um inimigo, mas também não é alguém que deve ser tratado como um acessório para a nossa performance. Um bom parceiro é um catalisador: ele é a medida concreta da nossa prática. É com ele que descobrimos se aquilo que fazemos tem presença, eficácia, cuidado e verdade.
Depois dessa primeira questão- a viabilidade técnica e combativa de uma técnica quando duas pessoas estão engajadas em uma situação de conflito- surge imediatamente uma segunda dimensão: as respostas emocionais, psicológicas e espirituais que aparecem diante da possibilidade da violência.
Aqui estamos falando, novamente, do medo.
O medo talvez seja a emoção mais fundamental nesse território. Dele podem surgir a raiva, a necessidade de controle, a rigidez, a agressividade, a hesitação, a vaidade ferida, a ganância por vitória ou a recusa em aceitar a própria vulnerabilidade. O medo revela muitas coisas. Revela nossa ignorância, nossas ilusões sobre nós mesmos, nossas estratégias de defesa e aquilo que ainda não conseguimos reconciliar dentro de nós.
Por isso, o artista marcial precisa levar a sério a investigação do medo.
Não basta falar sobre coragem, autocontrole ou serenidade como ideias abstratas. A prática precisa criar condições reais, ainda que graduais e seguras, para que o praticante encontre o medo no corpo. Ele precisa se colocar em situações em que algo dessa tensão apareça: a pressão do outro, a perda de equilíbrio, a proximidade do ataque, a incerteza, a incapacidade momentânea de controlar tudo.
É nesse encontro que a prática começa a revelar sua profundidade.
A título de anedota, um dos nossos alunos nos contou que, antes de encontrar nosso dojo, estava visitando outros dojos e experimentando outras artes marciais. Ao visitar uma escola local pela primeira vez, encontrou um ambiente carregado de machismo e testosterona. Após a aula, enquanto conversava com o instrutor, este reafirmou a viabilidade de seu estilo e de sua escola. A conversa, então, tomou um rumo inesperado, e o mesmo instrutor revelou uma condição de saúde com a qual estava lidando- e esperando por um procedimento médico rotineiro nada muito sério- e assim que a revelou, esse instrutor se transformou de um guerreiro implacável a uma criança amedrontada.
O nosso aluno percebeu que, naquele dojo, algo estava faltando.
O medo é uma emoção humana comum, necessária e inteligente. O objetivo não é eliminar o medo, como se isso fosse possível ou mesmo desejável. O problema não é sentir medo. O problema é ser governado por ele sem percebê-lo. O caminho marcial exige que aprendamos a reconhecer o medo, escutá-lo, atravessá-lo e, pouco a pouco, reconciliar-nos com ele.
Nesse sentido, a arte marcial não é apenas sobre aprender a lidar com violência externa. É também sobre perceber as formas sutis de violência que carregamos: a pressa, a vontade de vencer, o desejo de controlar, o medo de perder, a necessidade de parecer competente. A prática revela essas coisas. E talvez seja justamente aí que começa o caminho.
Quem não leva isso a sério pode, sem dúvida, praticar uma arte marcial. Pode praticá-la como exercício físico, como atividade social, como forma de mobilidade, saúde, disciplina, amizade ou pertencimento a uma comunidade. E não há nada de errado nisso. Esses aspectos são valiosos e legítimos.
Mas talvez isso ainda não seja suficiente para fazer de alguém um artista marcial.
O artista marcial é alguém que leva muito a sério duas dimensões inseparáveis: a função técnica e tática daquilo que estuda, e o estudo interno das emoções que surgem no confronto humano. Ele estuda a violência entre seres humanos não para glorificá-la, mas para compreendê-la, refiná-la, atravessá-la e transformá-la em caminho.
Falando em técnica, a palavra japonesa jutsu (術) costuma ser traduzida como técnica, método ou arte. Mas técnica, aqui, não precisa ser entendida de forma fria, mecânica ou puramente utilitária. Técnica também pode ser uma maneira de navegar pelo mundo: uma maneira de responder aos desafios com mais habilidade, mais presença, mais beleza e mais desenvoltura.
Quanto mais aprendemos sobre o contexto histórico das tradições marciais japonesas e sobre seu passado mais antigo, mais percebemos que a relação entre 術, jutsu, e 道, dō, nunca foi simplesmente uma oposição entre técnica e caminho. Essa distinção ganhou contornos modernos a partir do período Meiji e se consolidou no início do século XX, mas ela revela algo mais profundo: o entendimento de técnica não precisava estar desvinculado do caminho. Percorrer uma trajetória exige entendimento correto do terreno, das condições e das ferramentas necessárias para atravessá-lo. Trata-se de uma ideia profundamente prática e filosófica ao mesmo tempo.
A distinção moderna entre jutsu e dō talvez revele uma tensão criada pela própria modernização japonesa. À medida que o Japão Meiji se industrializava e buscava se equiparar ao Ocidente, “técnica” podia passar a ser entendida de maneira mais estreita: como método, eficiência, aplicação e produção de resultados. Nesse contexto, chamar uma prática de dō era também uma forma de resistir à redução da técnica a um mecanismo. Era afirmar que a técnica, quando realmente compreendida, não é apenas instrumento, mas caminho: uma forma de educação do corpo, da mente, da percepção e do caráter.
Praticar uma arte marcial é aprender técnicas. Ser um artista marcial é permitir que essas técnicas transformem a maneira como nos relacionamos com o conflito, com o corpo, com o outro e conosco mesmos. A diferença está na profundidade da pergunta que levamos para o tatame- e dele para o resto das nossas vidas.
Por fim, cada um irá escolher o caminho que quiser percorrer. Inclusive, hoje em dia, eu prefiro me referir à minha prática como caminho do guerreiro, expressão que tem uma relação mais precisa com budō do que “arte marcial”. Ainda assim, palavras são só palavras, apontando para algo que não se deixa nomear.
Recentemente, deparei-me com um dōka, um poema do caminho atribuído a Morihei Ueshiba, que aponta para a mesma direção:
武とはいえ声もすがたも影もなし
神に聞かれて答うすべなし
Ainda que se fale do marcial,
não há voz, nem forma, nem sombra.
Se o kami perguntasse,
não haveria resposta a se dar.
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